Todo ser humano é carente. Carente de amor, de atenção, de coragem, de bons políticos, de histórias que deem um sentido às suas vidas. Em um panorama geral, todos sentimos falta de alguma coisa. O niteroiense, por exemplo, dentre tantas carências que possui, estava sentindo a falta de salas de cinema nas quais pudesse assistir a filmes de qualidade. Com poucas salas, o público de Niterói, interessado em assistir a algo além do entretenimento escapista, inevitavelmente, se aventurava além-mar em busca de diversão cinéfila virtuosa. Assim, uma simples ida ao cinema, se tornava uma pequena aventura, via ponte Rio-Niterói, que nem todos estavam dispostos a realizar.
Falo de
experiência sentida e vivida. Sou cinéfilo desde a mais tenra idade e sempre
tive que me deslocar pela baía de Guanabara em busca de boas salas de exibição.
Muitas vezes, o jeito era apelar para algum amigo carioca e contar com a
hospitalidade de um pernoite ou emendar um programa do tipo cinema + festa e só
voltar no dia seguinte. (Sim, eu fiz isso muitas vezes). Soluções fáceis eram
proferidas por todos: “Espera chegar à locadora”, nos anos 90. “Espera chegar
em DVD”, nos anos 2000. “Baixa na internet”, na década atual. Porém, nenhuma dessas
opções me apetecia. Nada contra, gosto de assistir DVDs, Blu-Rays e até mesmo
downloads da Internet, é uma forma fácil e útil para quem quer ver muitos
filmes. Mas, mesmo com toda essa facilidade, para mim, a sala escura, ainda é
muito sedutora e diferente de todas as outras formas de se apreciar um filme.
Sou cinéfilo de cinema e a redundância dessa expressão não é sem propósito. Não
é só pela tela grande, pela escuridão compartilhada com estranhos ou pelo
processo de imersão mais intenso na história que se vê projetada, é mais do que
isso. Para mim, ir ao cinema é ritual. A sala escura, o projetor, o som, os
estranhos ao redor, tudo é muito ritualístico. É algo quase religioso, porém
com o viés profano do voyeurismo.
Ir ao cinema
é uma cumplicidade com todo aquele pessoal que faz parte de um longa-metragem.
O diretor, o roteirista, os atores, o cenógrafo, o fotógrafo, o montador, o
figurinista, o maquiador... Todos eles pensaram numa forma de contar uma
história e depois compartilharam essa visão conosco. Pode parecer bobagem isso
que estou dizendo e sei que para muitas pessoas que só curte ver um filme
porque ele está na moda, isso não faz o mínimo sentido. Mas essa é a minha
opinião: um filme só alcança sua plenitude na tela grande de uma sala escura e
a experiência de assisti-lo desse jeito é única e indiscutível. Reitero: sou
cinéfilo de cinema. Creio que a loucura não seja só minha, hão de existir
outros iguais a mim.
No
entanto, nos últimos tempos, ficou cada vez mais nublada a situação de nossos
cinemas. Especificamente no Rio de Janeiro, há poucos meses atrás, vivemos uma
ressaca quando o Grupo Estação anunciou que estava com uma dívida milionária e
impagável e que a falência seria o destino mais certeiro de suas salas. Muito
se falou e se especulou e, por fim, os administradores do grupo acabaram por
anunciar recentemente que conseguiram negociar a dívida por 15 anos mantendo
dessa forma os espaços de exibição. Mesmo assim, incertezas pairam no ar denso
daquelas salas, pois um dos principais cinemas do Grupo Estação, o Odeon,
permanece de portas fechadas sem data de retorno. Alega-se que está passando
por uma reforma estrutural necessária, mas nunca sabemos ao certo o que
acontece nos bastidores dessas obras. Fato é que os cinemas de rua agonizam e
isso é notório em nosso país.
Em
Niterói, a situação ainda era pior. Todas (eu disse todas) as salas de cinema
de rua da cidade foram fechadas na última década. Sobraram apenas os cinemas do
Plaza Shopping, pertencentes à rede Cinemark, que não nego, são ótimas salas,
confortáveis, com tecnologia de ponta e que, lá uma vez ou outra, tem algum
lançamento interessante em cartaz que foge do padrão blockbuster americano. Há
ainda as salas do shopping Bay Market gerenciadas pelo grupo Severiano Ribeiro
também voltadas para o cinema comercial. Essas salas contribuem muito pouco
para a formação de seu diversificado público. Afinal, nem todo mundo está a fim
de assistir Transformers, Velozes e Furiosos ou Piratas do Caribe em suas
infindáveis continuações.
Embora a
situação seja deprimente, já faz dois meses, felizmente, Niterói, enfim,
encontrou uma válvula de escape para uma cultura cinematográfica afogada em
produções medíocres. Eis que ressurge das cinzas o Cine Arte UFF, um cinema
público pertencente à Universidade Federal Fluminense e que sempre teve a
preocupação de levar bons filmes à sua programação semanal. Fechado desde 2008
para reformas que se estenderam mais do que o esperado, o cinema retornou à atividade
e já revelou fôlego renovado ao trazer uma repescagem dos principais filmes do
Festival do Rio 2014. É um alento poder assistir a filmes que ainda não tem
data de lançamento garantida em nosso país e nem sabemos se muitos desses
filmes encontrarão brechas no mercado exibidor. Portanto, o Cine Arte UFF ganha
destaque por proporcionar essa experiência ao público. O cinema da UFF, como
também é conhecido por muitos, não é propriamente um cinema de rua, mas pode
ser considerado como tal. Ele fica dentro do Centro de Artes da UFF que abriga
além do cinema, um teatro e um espaço de exposições. E está localizado em um
prédio histórico em frente à praia de Icaraí.
Menino
tímido que fui, o cinema sempre se revelou um espaço de fuga para mim. Era lá
que eu conseguia descobrir um mundo de possibilidades, antes impossíveis para
mim. E foi dentro do Cine Arte UFF que eu vi uma gama de produções das mais
variadas cinematografias mundiais, dos mais diversos gêneros, dos mais
diferentes cineastas e com as mais amplas propostas. Lembro muito bem da
primeira vez que pisei por lá. Era o ano de 1998 e, incentivado por uma
professora, fui assistir ao filme brasileiro Central do Brasil. O
longa-metragem havia ganhado fama por ser indicado ao Oscar de melhor filme
estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro, mas era uma exceção à
época. O cinema brasileiro ainda não levava um público tão grande às salas como
acontece hoje em dia e ainda havia um preconceito enorme diante de produções
nacionais. Era corriqueiro ouvir de bocas alheias um “Eu odeio filme
brasileiro”, sentença proferida com certo ódio e um orgulho pueril, mas que
incoerentemente provinha de pessoas que não sabiam nada de cinema brasileiro e
queriam apenas desdenhar do nosso cinema comparando-o injustamente com o cinema
americano que durante décadas dominou nossa cultura e pensamento. As sessões da
tarde da Rede Globo explicam muito disso.
Portanto,
foi com imensa felicidade que recebi a notícia do retorno desta sala de cinema,
um local que teve importância fundamental na minha formação como cinéfilo e
também na minha formação humana e que, agora, me fez retornar a esse blog no
qual certamente resenharei filmes mais interessantes. Espero que esse seja apenas o primeiro passo
de muitos outros que a cidade de Niterói está dando em relação à cultura
cinematográfica. A cidade tem um potencial imenso para se tornar um grande eixo
exibidor ainda mais por abrigar a faculdade de cinema da UFF, uma das mais
importantes do país. Ainda tenho esperanças de ver funcionando a todo o vapor o
Centro Petrobrás de Cinema e também o Cinema Icaraí. Que o futuro seja breve! E
vida longa ao Cine Arte UFF!
Veja a programação aqui: http://www.centrodeartes.uff.br/

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