sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O retorno do CineArte UFF


            Todo ser humano é carente. Carente de amor, de atenção, de coragem, de bons políticos, de histórias que deem um sentido às suas vidas. Em um panorama geral, todos sentimos falta de alguma coisa. O niteroiense, por exemplo, dentre tantas carências que possui, estava sentindo a falta de salas de cinema nas quais pudesse assistir a filmes de qualidade. Com poucas salas, o público de Niterói, interessado em assistir a algo além do entretenimento escapista, inevitavelmente, se aventurava além-mar em busca de diversão cinéfila virtuosa. Assim, uma simples ida ao cinema, se tornava uma pequena aventura, via ponte Rio-Niterói, que nem todos estavam dispostos a realizar.

            Falo de experiência sentida e vivida. Sou cinéfilo desde a mais tenra idade e sempre tive que me deslocar pela baía de Guanabara em busca de boas salas de exibição. Muitas vezes, o jeito era apelar para algum amigo carioca e contar com a hospitalidade de um pernoite ou emendar um programa do tipo cinema + festa e só voltar no dia seguinte. (Sim, eu fiz isso muitas vezes). Soluções fáceis eram proferidas por todos: “Espera chegar à locadora”, nos anos 90. “Espera chegar em DVD”, nos anos 2000. “Baixa na internet”, na década atual. Porém, nenhuma dessas opções me apetecia. Nada contra, gosto de assistir DVDs, Blu-Rays e até mesmo downloads da Internet, é uma forma fácil e útil para quem quer ver muitos filmes. Mas, mesmo com toda essa facilidade, para mim, a sala escura, ainda é muito sedutora e diferente de todas as outras formas de se apreciar um filme. Sou cinéfilo de cinema e a redundância dessa expressão não é sem propósito. Não é só pela tela grande, pela escuridão compartilhada com estranhos ou pelo processo de imersão mais intenso na história que se vê projetada, é mais do que isso. Para mim, ir ao cinema é ritual. A sala escura, o projetor, o som, os estranhos ao redor, tudo é muito ritualístico. É algo quase religioso, porém com o viés profano do voyeurismo.

          Ir ao cinema é uma cumplicidade com todo aquele pessoal que faz parte de um longa-metragem. O diretor, o roteirista, os atores, o cenógrafo, o fotógrafo, o montador, o figurinista, o maquiador... Todos eles pensaram numa forma de contar uma história e depois compartilharam essa visão conosco. Pode parecer bobagem isso que estou dizendo e sei que para muitas pessoas que só curte ver um filme porque ele está na moda, isso não faz o mínimo sentido. Mas essa é a minha opinião: um filme só alcança sua plenitude na tela grande de uma sala escura e a experiência de assisti-lo desse jeito é única e indiscutível. Reitero: sou cinéfilo de cinema. Creio que a loucura não seja só minha, hão de existir outros iguais a mim.

            No entanto, nos últimos tempos, ficou cada vez mais nublada a situação de nossos cinemas. Especificamente no Rio de Janeiro, há poucos meses atrás, vivemos uma ressaca quando o Grupo Estação anunciou que estava com uma dívida milionária e impagável e que a falência seria o destino mais certeiro de suas salas. Muito se falou e se especulou e, por fim, os administradores do grupo acabaram por anunciar recentemente que conseguiram negociar a dívida por 15 anos mantendo dessa forma os espaços de exibição. Mesmo assim, incertezas pairam no ar denso daquelas salas, pois um dos principais cinemas do Grupo Estação, o Odeon, permanece de portas fechadas sem data de retorno. Alega-se que está passando por uma reforma estrutural necessária, mas nunca sabemos ao certo o que acontece nos bastidores dessas obras. Fato é que os cinemas de rua agonizam e isso é notório em nosso país.
      
            Em Niterói, a situação ainda era pior. Todas (eu disse todas) as salas de cinema de rua da cidade foram fechadas na última década. Sobraram apenas os cinemas do Plaza Shopping, pertencentes à rede Cinemark, que não nego, são ótimas salas, confortáveis, com tecnologia de ponta e que, lá uma vez ou outra, tem algum lançamento interessante em cartaz que foge do padrão blockbuster americano. Há ainda as salas do shopping Bay Market gerenciadas pelo grupo Severiano Ribeiro também voltadas para o cinema comercial. Essas salas contribuem muito pouco para a formação de seu diversificado público. Afinal, nem todo mundo está a fim de assistir Transformers, Velozes e Furiosos ou Piratas do Caribe em suas infindáveis continuações.

           Embora a situação seja deprimente, já faz dois meses, felizmente, Niterói, enfim, encontrou uma válvula de escape para uma cultura cinematográfica afogada em produções medíocres. Eis que ressurge das cinzas o Cine Arte UFF, um cinema público pertencente à Universidade Federal Fluminense e que sempre teve a preocupação de levar bons filmes à sua programação semanal. Fechado desde 2008 para reformas que se estenderam mais do que o esperado, o cinema retornou à atividade e já revelou fôlego renovado ao trazer uma repescagem dos principais filmes do Festival do Rio 2014. É um alento poder assistir a filmes que ainda não tem data de lançamento garantida em nosso país e nem sabemos se muitos desses filmes encontrarão brechas no mercado exibidor. Portanto, o Cine Arte UFF ganha destaque por proporcionar essa experiência ao público. O cinema da UFF, como também é conhecido por muitos, não é propriamente um cinema de rua, mas pode ser considerado como tal. Ele fica dentro do Centro de Artes da UFF que abriga além do cinema, um teatro e um espaço de exposições. E está localizado em um prédio histórico em frente à praia de Icaraí.

            Menino tímido que fui, o cinema sempre se revelou um espaço de fuga para mim. Era lá que eu conseguia descobrir um mundo de possibilidades, antes impossíveis para mim. E foi dentro do Cine Arte UFF que eu vi uma gama de produções das mais variadas cinematografias mundiais, dos mais diversos gêneros, dos mais diferentes cineastas e com as mais amplas propostas. Lembro muito bem da primeira vez que pisei por lá. Era o ano de 1998 e, incentivado por uma professora, fui assistir ao filme brasileiro Central do Brasil. O longa-metragem havia ganhado fama por ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro, mas era uma exceção à época. O cinema brasileiro ainda não levava um público tão grande às salas como acontece hoje em dia e ainda havia um preconceito enorme diante de produções nacionais. Era corriqueiro ouvir de bocas alheias um “Eu odeio filme brasileiro”, sentença proferida com certo ódio e um orgulho pueril, mas que incoerentemente provinha de pessoas que não sabiam nada de cinema brasileiro e queriam apenas desdenhar do nosso cinema comparando-o injustamente com o cinema americano que durante décadas dominou nossa cultura e pensamento. As sessões da tarde da Rede Globo explicam muito disso.

            Portanto, foi com imensa felicidade que recebi a notícia do retorno desta sala de cinema, um local que teve importância fundamental na minha formação como cinéfilo e também na minha formação humana e que, agora, me fez retornar a esse blog no qual certamente resenharei filmes mais interessantes.  Espero que esse seja apenas o primeiro passo de muitos outros que a cidade de Niterói está dando em relação à cultura cinematográfica. A cidade tem um potencial imenso para se tornar um grande eixo exibidor ainda mais por abrigar a faculdade de cinema da UFF, uma das mais importantes do país. Ainda tenho esperanças de ver funcionando a todo o vapor o Centro Petrobrás de Cinema e também o Cinema Icaraí. Que o futuro seja breve! E vida longa ao Cine Arte UFF!


Veja a programação aqui: http://www.centrodeartes.uff.br/

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