sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Exposição: Corpos Presentes – Still Being



A exposição com obras, maquetes, gravuras, fotos e vídeos traça um panorama da carreira do escultor inglês Antony Gormley


















 

O Lobo Atrás Da Porta







O lobo em pele de cordeiro para os dias atuais


 Todos os dias, quando abrimos os jornais ou a Internet, lemos um punhado de tragédias familiares. Maridos traídos matando suas esposas, mulheres vingativas assassinando seus amantes, mães ou madrastas eliminando crianças com requintes de crueldade e por aí vai. São tantos casos, que a nós cabe uma única certeza: algo está errado no mundo. Vivemos em tempos de relações humanas degradadas e é com base nessa premissa que o diretor estreante Fernando Coimbra escreveu o roteiro de seu primeiro longa-metragem.

         O filme é uma interessante mistura de gêneros cinematográficos, suspense, drama e policial, que, a princípio, parece revelar mais do mesmo, mas, felizmente, não é o que acontece. Tudo começa quando uma mãe desesperada procura pela filha desaparecida. Numa delegacia, somos apresentados aos personagens. A mãe em questão, o marido dela, a amante dele e a responsável pela creche na qual a criança tinha sido vista pela última vez. Todos dão informações confusas e incertas e o policial que conduz a investigação, pouco a pouco, vai adentrado numa trama que esmiúça a mentira, a vingança, o ódio e a traição. Aparentemente, todos são inocentes, todos estão assustados, ninguém sabe de nada. Mas a partir do momento em que a verdade vem à tona, percebemos o quanto estamos diante de seres humanos travestidos de pessoas de bem, mas capazes das mais desumanas crueldades.


         Há um jogo de aparências muito bem construído pelo diretor. Sorrisos falsos, meias verdades, desejos lascivos, falsas amizades e gentilezas vazias permeiam cada minuto do filme. Os nomes curtos de mulheres parecem propositalmente gerar confusão. Rosa, Dália, Rita, Silvia, Clara, Beth, outra Silvia são alguns dos nomes que aparecem em cena. Esse detalhe é exposto durante a investigação quando, indagado pelo delegado, o marido tenta lembrar o nome de uma mulher que dias antes havia passado um trote e se identificado como Beth. Ele não tem certeza do nome, mas o que fica para o espectador é que dentro dessa falta de clareza de nomes femininos também fica a indistinção do perigo que, às vezes, vem da forma mais simples e rotineira Está ali, diante dos nossos olhos ou do nosso lado. Pode ser nosso vizinho, a pessoa que amamos, um amigo. No longa-metragem, a violência surge do dia-a-dia, das relações mal resolvidas, do desejo incontrolável, do mundo adulto que não se dá conta de seus próprios atos e que tem na criança um de seus alvos mais fáceis do descarrego de suas maldades. É um retrato assustador de uma realidade comum no Brasil.

            Todo filmado na zona norte do Rio de Janeiro, há em “O Lobo atrás da porta” cenas muito bem construídas. O trem que passa sempre pela Estação de Marechal Hermes deslizando pesado e ruidoso sobre os trilhos, os trovões e a chuva forte que cai durante uma cena em que os protagonistas conversam e a lavagem da escadaria da Igreja da Penha com sons confusos de vozes, águas e pés caminhando, parecem anunciar lamentosamente a tragédia que está por vir. O som das cigarras, confusas e barulhentas, numa cena crucial do filme, explicita o nosso incômodo como plateia diante de uma cena brutal. É como se a natureza reagisse diante daquilo que vê e também se chocasse e se lamentasse.

            A produção se segura nas boas atuações do elenco encabeçado por Leandra Leal e Milhem Cortaz que demonstram grande química, principalmente, nos momentos que exigiram grande intimidade. Fabiula Nascimento também não faz feio como a dona de casa traída que não se dá conta do perigo que está bem a sua frente. Há ainda as participações de Talita Carauta, que imprime humor em todas as cenas em que aparece e ajuda a aliviar o peso da temática densa. Só achei pouco aproveitado o delegado interpretado por Juliano Cazarré que investe mais no perfil do policial durão engraçadinho. O estarrecimento com as atitudes humanas impensadas poderia conduzir o olhar deste personagem, atribuindo-lhe melhores camadas interpretativas. Infelizmente, não é o que acontece, mas esse detalhe não chega a prejudicar a qualidade da produção.


            A narrativa se aprofunda na psique humana que por impulsos incompreensíveis (ou até compreensíveis, dependendo do ponto de vista) emerge na forma de atos de extrema violência. Com a mesma facilidade que a protagonista diz ser fácil comprar um revólver na cidade, a maldade parece assim ser efetivada. É fácil, prática e rápida. E numa sociedade que põe à disposição do homem facilidades para seus intentos criminosos, tudo se torna ainda mais assustador. O Lobo atrás da porta atualiza a expressão “lobo em pele de cordeiro”. Agora, a metáfora do lobo não requer mais disfarces. Em tempos modernos, surge sem máscara alguma. O lobo é a representação de todo o mal humano que, traiçoeiro, se esconde de forma quase imperceptível nos lugares mais ordinários e, paradoxalmente, acabam por se tornar os lugares menos prováveis. Está ali, atrás da porta da cozinha na qual a mãe prepara um simples jantar sem se dar conta do que acontece ao seu redor, seja por ingenuidade ou pela própria infelicidade de sua vida. Atrás da porta do quarto, que fechada acalenta seus filhos. Atrás da porta principal que nos preserva ilusoriamente dos perigos da rua ou atrás da porta da escola que supostamente protege as crianças. O mal espreita a todos nós, calmo e silencioso, mas pronto para nos atingir, a qualquer momento, sem aviso e sem distinção.

O retorno do CineArte UFF


            Todo ser humano é carente. Carente de amor, de atenção, de coragem, de bons políticos, de histórias que deem um sentido às suas vidas. Em um panorama geral, todos sentimos falta de alguma coisa. O niteroiense, por exemplo, dentre tantas carências que possui, estava sentindo a falta de salas de cinema nas quais pudesse assistir a filmes de qualidade. Com poucas salas, o público de Niterói, interessado em assistir a algo além do entretenimento escapista, inevitavelmente, se aventurava além-mar em busca de diversão cinéfila virtuosa. Assim, uma simples ida ao cinema, se tornava uma pequena aventura, via ponte Rio-Niterói, que nem todos estavam dispostos a realizar.

            Falo de experiência sentida e vivida. Sou cinéfilo desde a mais tenra idade e sempre tive que me deslocar pela baía de Guanabara em busca de boas salas de exibição. Muitas vezes, o jeito era apelar para algum amigo carioca e contar com a hospitalidade de um pernoite ou emendar um programa do tipo cinema + festa e só voltar no dia seguinte. (Sim, eu fiz isso muitas vezes). Soluções fáceis eram proferidas por todos: “Espera chegar à locadora”, nos anos 90. “Espera chegar em DVD”, nos anos 2000. “Baixa na internet”, na década atual. Porém, nenhuma dessas opções me apetecia. Nada contra, gosto de assistir DVDs, Blu-Rays e até mesmo downloads da Internet, é uma forma fácil e útil para quem quer ver muitos filmes. Mas, mesmo com toda essa facilidade, para mim, a sala escura, ainda é muito sedutora e diferente de todas as outras formas de se apreciar um filme. Sou cinéfilo de cinema e a redundância dessa expressão não é sem propósito. Não é só pela tela grande, pela escuridão compartilhada com estranhos ou pelo processo de imersão mais intenso na história que se vê projetada, é mais do que isso. Para mim, ir ao cinema é ritual. A sala escura, o projetor, o som, os estranhos ao redor, tudo é muito ritualístico. É algo quase religioso, porém com o viés profano do voyeurismo.

          Ir ao cinema é uma cumplicidade com todo aquele pessoal que faz parte de um longa-metragem. O diretor, o roteirista, os atores, o cenógrafo, o fotógrafo, o montador, o figurinista, o maquiador... Todos eles pensaram numa forma de contar uma história e depois compartilharam essa visão conosco. Pode parecer bobagem isso que estou dizendo e sei que para muitas pessoas que só curte ver um filme porque ele está na moda, isso não faz o mínimo sentido. Mas essa é a minha opinião: um filme só alcança sua plenitude na tela grande de uma sala escura e a experiência de assisti-lo desse jeito é única e indiscutível. Reitero: sou cinéfilo de cinema. Creio que a loucura não seja só minha, hão de existir outros iguais a mim.

            No entanto, nos últimos tempos, ficou cada vez mais nublada a situação de nossos cinemas. Especificamente no Rio de Janeiro, há poucos meses atrás, vivemos uma ressaca quando o Grupo Estação anunciou que estava com uma dívida milionária e impagável e que a falência seria o destino mais certeiro de suas salas. Muito se falou e se especulou e, por fim, os administradores do grupo acabaram por anunciar recentemente que conseguiram negociar a dívida por 15 anos mantendo dessa forma os espaços de exibição. Mesmo assim, incertezas pairam no ar denso daquelas salas, pois um dos principais cinemas do Grupo Estação, o Odeon, permanece de portas fechadas sem data de retorno. Alega-se que está passando por uma reforma estrutural necessária, mas nunca sabemos ao certo o que acontece nos bastidores dessas obras. Fato é que os cinemas de rua agonizam e isso é notório em nosso país.
      
            Em Niterói, a situação ainda era pior. Todas (eu disse todas) as salas de cinema de rua da cidade foram fechadas na última década. Sobraram apenas os cinemas do Plaza Shopping, pertencentes à rede Cinemark, que não nego, são ótimas salas, confortáveis, com tecnologia de ponta e que, lá uma vez ou outra, tem algum lançamento interessante em cartaz que foge do padrão blockbuster americano. Há ainda as salas do shopping Bay Market gerenciadas pelo grupo Severiano Ribeiro também voltadas para o cinema comercial. Essas salas contribuem muito pouco para a formação de seu diversificado público. Afinal, nem todo mundo está a fim de assistir Transformers, Velozes e Furiosos ou Piratas do Caribe em suas infindáveis continuações.

           Embora a situação seja deprimente, já faz dois meses, felizmente, Niterói, enfim, encontrou uma válvula de escape para uma cultura cinematográfica afogada em produções medíocres. Eis que ressurge das cinzas o Cine Arte UFF, um cinema público pertencente à Universidade Federal Fluminense e que sempre teve a preocupação de levar bons filmes à sua programação semanal. Fechado desde 2008 para reformas que se estenderam mais do que o esperado, o cinema retornou à atividade e já revelou fôlego renovado ao trazer uma repescagem dos principais filmes do Festival do Rio 2014. É um alento poder assistir a filmes que ainda não tem data de lançamento garantida em nosso país e nem sabemos se muitos desses filmes encontrarão brechas no mercado exibidor. Portanto, o Cine Arte UFF ganha destaque por proporcionar essa experiência ao público. O cinema da UFF, como também é conhecido por muitos, não é propriamente um cinema de rua, mas pode ser considerado como tal. Ele fica dentro do Centro de Artes da UFF que abriga além do cinema, um teatro e um espaço de exposições. E está localizado em um prédio histórico em frente à praia de Icaraí.

            Menino tímido que fui, o cinema sempre se revelou um espaço de fuga para mim. Era lá que eu conseguia descobrir um mundo de possibilidades, antes impossíveis para mim. E foi dentro do Cine Arte UFF que eu vi uma gama de produções das mais variadas cinematografias mundiais, dos mais diversos gêneros, dos mais diferentes cineastas e com as mais amplas propostas. Lembro muito bem da primeira vez que pisei por lá. Era o ano de 1998 e, incentivado por uma professora, fui assistir ao filme brasileiro Central do Brasil. O longa-metragem havia ganhado fama por ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro, mas era uma exceção à época. O cinema brasileiro ainda não levava um público tão grande às salas como acontece hoje em dia e ainda havia um preconceito enorme diante de produções nacionais. Era corriqueiro ouvir de bocas alheias um “Eu odeio filme brasileiro”, sentença proferida com certo ódio e um orgulho pueril, mas que incoerentemente provinha de pessoas que não sabiam nada de cinema brasileiro e queriam apenas desdenhar do nosso cinema comparando-o injustamente com o cinema americano que durante décadas dominou nossa cultura e pensamento. As sessões da tarde da Rede Globo explicam muito disso.

            Portanto, foi com imensa felicidade que recebi a notícia do retorno desta sala de cinema, um local que teve importância fundamental na minha formação como cinéfilo e também na minha formação humana e que, agora, me fez retornar a esse blog no qual certamente resenharei filmes mais interessantes.  Espero que esse seja apenas o primeiro passo de muitos outros que a cidade de Niterói está dando em relação à cultura cinematográfica. A cidade tem um potencial imenso para se tornar um grande eixo exibidor ainda mais por abrigar a faculdade de cinema da UFF, uma das mais importantes do país. Ainda tenho esperanças de ver funcionando a todo o vapor o Centro Petrobrás de Cinema e também o Cinema Icaraí. Que o futuro seja breve! E vida longa ao Cine Arte UFF!


Veja a programação aqui: http://www.centrodeartes.uff.br/