sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Lobo Atrás Da Porta







O lobo em pele de cordeiro para os dias atuais


 Todos os dias, quando abrimos os jornais ou a Internet, lemos um punhado de tragédias familiares. Maridos traídos matando suas esposas, mulheres vingativas assassinando seus amantes, mães ou madrastas eliminando crianças com requintes de crueldade e por aí vai. São tantos casos, que a nós cabe uma única certeza: algo está errado no mundo. Vivemos em tempos de relações humanas degradadas e é com base nessa premissa que o diretor estreante Fernando Coimbra escreveu o roteiro de seu primeiro longa-metragem.

         O filme é uma interessante mistura de gêneros cinematográficos, suspense, drama e policial, que, a princípio, parece revelar mais do mesmo, mas, felizmente, não é o que acontece. Tudo começa quando uma mãe desesperada procura pela filha desaparecida. Numa delegacia, somos apresentados aos personagens. A mãe em questão, o marido dela, a amante dele e a responsável pela creche na qual a criança tinha sido vista pela última vez. Todos dão informações confusas e incertas e o policial que conduz a investigação, pouco a pouco, vai adentrado numa trama que esmiúça a mentira, a vingança, o ódio e a traição. Aparentemente, todos são inocentes, todos estão assustados, ninguém sabe de nada. Mas a partir do momento em que a verdade vem à tona, percebemos o quanto estamos diante de seres humanos travestidos de pessoas de bem, mas capazes das mais desumanas crueldades.


         Há um jogo de aparências muito bem construído pelo diretor. Sorrisos falsos, meias verdades, desejos lascivos, falsas amizades e gentilezas vazias permeiam cada minuto do filme. Os nomes curtos de mulheres parecem propositalmente gerar confusão. Rosa, Dália, Rita, Silvia, Clara, Beth, outra Silvia são alguns dos nomes que aparecem em cena. Esse detalhe é exposto durante a investigação quando, indagado pelo delegado, o marido tenta lembrar o nome de uma mulher que dias antes havia passado um trote e se identificado como Beth. Ele não tem certeza do nome, mas o que fica para o espectador é que dentro dessa falta de clareza de nomes femininos também fica a indistinção do perigo que, às vezes, vem da forma mais simples e rotineira Está ali, diante dos nossos olhos ou do nosso lado. Pode ser nosso vizinho, a pessoa que amamos, um amigo. No longa-metragem, a violência surge do dia-a-dia, das relações mal resolvidas, do desejo incontrolável, do mundo adulto que não se dá conta de seus próprios atos e que tem na criança um de seus alvos mais fáceis do descarrego de suas maldades. É um retrato assustador de uma realidade comum no Brasil.

            Todo filmado na zona norte do Rio de Janeiro, há em “O Lobo atrás da porta” cenas muito bem construídas. O trem que passa sempre pela Estação de Marechal Hermes deslizando pesado e ruidoso sobre os trilhos, os trovões e a chuva forte que cai durante uma cena em que os protagonistas conversam e a lavagem da escadaria da Igreja da Penha com sons confusos de vozes, águas e pés caminhando, parecem anunciar lamentosamente a tragédia que está por vir. O som das cigarras, confusas e barulhentas, numa cena crucial do filme, explicita o nosso incômodo como plateia diante de uma cena brutal. É como se a natureza reagisse diante daquilo que vê e também se chocasse e se lamentasse.

            A produção se segura nas boas atuações do elenco encabeçado por Leandra Leal e Milhem Cortaz que demonstram grande química, principalmente, nos momentos que exigiram grande intimidade. Fabiula Nascimento também não faz feio como a dona de casa traída que não se dá conta do perigo que está bem a sua frente. Há ainda as participações de Talita Carauta, que imprime humor em todas as cenas em que aparece e ajuda a aliviar o peso da temática densa. Só achei pouco aproveitado o delegado interpretado por Juliano Cazarré que investe mais no perfil do policial durão engraçadinho. O estarrecimento com as atitudes humanas impensadas poderia conduzir o olhar deste personagem, atribuindo-lhe melhores camadas interpretativas. Infelizmente, não é o que acontece, mas esse detalhe não chega a prejudicar a qualidade da produção.


            A narrativa se aprofunda na psique humana que por impulsos incompreensíveis (ou até compreensíveis, dependendo do ponto de vista) emerge na forma de atos de extrema violência. Com a mesma facilidade que a protagonista diz ser fácil comprar um revólver na cidade, a maldade parece assim ser efetivada. É fácil, prática e rápida. E numa sociedade que põe à disposição do homem facilidades para seus intentos criminosos, tudo se torna ainda mais assustador. O Lobo atrás da porta atualiza a expressão “lobo em pele de cordeiro”. Agora, a metáfora do lobo não requer mais disfarces. Em tempos modernos, surge sem máscara alguma. O lobo é a representação de todo o mal humano que, traiçoeiro, se esconde de forma quase imperceptível nos lugares mais ordinários e, paradoxalmente, acabam por se tornar os lugares menos prováveis. Está ali, atrás da porta da cozinha na qual a mãe prepara um simples jantar sem se dar conta do que acontece ao seu redor, seja por ingenuidade ou pela própria infelicidade de sua vida. Atrás da porta do quarto, que fechada acalenta seus filhos. Atrás da porta principal que nos preserva ilusoriamente dos perigos da rua ou atrás da porta da escola que supostamente protege as crianças. O mal espreita a todos nós, calmo e silencioso, mas pronto para nos atingir, a qualquer momento, sem aviso e sem distinção.

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